Crõnycas Përvèrzas

Escárnio e Maldizer

Imaginem vocês

Vivendo e aprendendo, como diria a gorda e patusca vizinha do Nelson Rodrigues…

Entre parênteses, a gorda e patusca vizinha era um truque óbvio e ao mesmo tempo genial do Nelson (O oráculo, admitamos. Isto é, não apenas um oráculo), quando queria fazer uso de indispensáveis platitudes eloqüentes: atribui-as a terceiros acidentais, coadjuvantes, figurantes da narrativa, todos sem pudor estilístico ou reputação literária a zelar, personagens reais ou fictícias, a exemplo da vizinha gorda e patusca, quase sempre com gazes enroladas nas canelas varicosas e brotoejas nas dobras do pescoço.

Mas não tente fazer isso em casa: nonchalance é virtude, vocação, talento, habilidade – como queiram – para poucos!

Pois bem, voltando ao assunto, só hoje soube (daí o “vivendo e aprendendo” rodrigueano do inicio desta errática e digressiva revelação) que o vetusto e venerando Moniz Bandeira (mais precisamente, Luiz Alberto Dias Lima de Vianna Moniz Bandeira, e, dito assim, por extenso, pensando bem, a improvável origem aristocrática começa a ser cogitada), com passado de militância na esquerda (PSB, POLOP, exílio, clandestinidade, prisão…), intelectual com produção acadêmica respeitada e por demais citada e “apudada”, tem o invejável título nobiliárquico de rara suspeição assim denominado: Barão de São Marcos!

Isso mesmo. Não se trata de galhofa ou privilégio auto-atribuído. O título foi reconhecido por D. Duarte Pio de Bragança, Duque de Bragança, Chefe da Casa Real Portuguesa, que, “ouvindo o Conselho de Nobreza, reconheceu a Luiz Alberto Dias Lima de Vianna Moniz Bandeira o direito ao uso do título de Barão de São Marcos, mediante alvará, datado de 18 de março de 1995, Proc° n° 1617, folhas 52 do Livro Dois, do Conselho de Nobreza, constante em Boletim Oficial do Conselho de Nobreza – Títulos (1948-1998), Lisboa, 2000, p. 181. O Conselho de Nobreza de Portugal, em harmonia com a Ordem Régia de 6 de maio de 1986, também reconheceu ao atual Barão de São Marcos, Luiz Alberto Dias Lima de Vianna Moniz Bandeira, o direito ao uso do brasão de armas e fidalguia” (entre aspas recolhido da Wikipedia).

Mas o que mais me espantou é que o Moniz Bandeira é baiano (de Salvador; e de nobre linhagem, certamente), a mim, também baiano, passionalmente cioso da importância cultural do lugar – embora sem fumos aristocráticos ou nobre genealogia a ostentar.

Moniz Bandeira, desde 1996, mora na Alemanha. Além do Baronato, mereceu outros títulos e honrarias, nacionais e internacionais, mas não herdados.

Eis que você pode muito bem me perguntar: – “E daí?”.

Sei lá!

Mas eu não recusaria o título. E adoraria merecer proventos que bastassem, com folga, à onerosa liturigia do cargo. Suspeito que a Casa Real Portuguesa não tenha previsão orçamentária para extravagâncias assim.

A Bahia.

Como só. Para júbilo e opróbrio. Desde sempre. Também são assim outros lugares, mas jamais como a Bahia.

Saibam quantos virem

Neila tavares, não sem motivo, costumava ficar iritada (creio que já tenha se resignado) com o que há de preguiça, burrice ou má-fé nos registros da imprensa acerca da origem de “Anti-Nelson Rodrigues”, penúltimo texto do Nelson Rodrigues para o teatro, escrito em 1973, encenado em 1974.

Mesmo na biografia do autor (“O Anjo Pornográfico”), por Ruy Castro, a versão segundo a qual Neila Tavares teria atormentado Nelson Rodrigues para que ele escrevesse algo para ela encenar continua sendo reproduzida sem reserva. Poderia ter sido diferente, caso o Ruy Castro tivesse procurado a Neila Tavares (principalmente a Neila Tavares, vítima preferencial do erro), Carlos Gregório, Zé Wilker ou Paulo César Pereio, para saber dos quatro como tudo acontecera. No mínimo, foi uma enorme falta de respeito para com a Neila.

Neila Tavares não precisaria atormentar nenhum autor para conseguir texto. Neila Tavares, muito antes de 1973, já tinha reputação respeitabilíssima. Por autores, atores e diretores. E, claro, por todos os seus admiradores, entre os quais me incluo, e dos mais ardorosos.

E, convenhamos, mesmo atormentado (o que, de fato, não ocorreu), o Nelson Rodrigues não se dedicaria a escrever nada para quem quer que fôsse, só pra se livrar do tormento.

E Neila já tinha proximidade com a família: escrevera sobre Roberto Rodrigues (desenhista, ilustrador e escultor), irmão do Nelson, que morreu muito jovem e em circunstância trágica e estúpida.

Para bem da verdade. O resto é jornalismo vagabundo!

Elias não comeu Jackie Sperandio

Nos antediluvianos anos 80 enta (é possível ível encontrar na WWW vestígios ígios daquele tempo, quando a vida do homem – de quem mais? – era “solitária, miserável, sórdida, brutal e curta”, segundo vaticinara Hobbes em época remotíssima e não menos desagradável, vestígios tais, todavia, ainda hoje considerados pouco elucidativos quanto à índole, epifenômenos e contemporâneos da década – crença que deverá permanecer até o último remanescente), pois bem, vencido o longo parêntese, nos anos 80 eu era não apenas muito jovem, mas solitário, miserável, muito descontente com a aparência que me coube e, tão grave quanto, com as minhas próprias circuntâncias, além, é claro (como se eu tivesse problemas de menos…), com aquelas dos dessemelhantes (em outras palavras, todo o resto), mesmo que eu não estivesse interessado em tornar a vida de quem quer que fosse menos pior. Tentei ser sórdido e brutal, à semelhança das circunstâncias, por intuir sobrevida de modo tal, mas não tive talento o bastante. Sobrevivi, decerto (como você pode ser capaz de supor), e aqui estou, agora (confira as horas), a prestar testemunho, mas tudo somente porque há algo na vida (do qual nada sabemos) que escapa às regras, mesmo as implacáveis.

Entretanto, devo dizer que os anos 80 não foram apenas cenário de deploráveis cortes de cabelo e roupas abstrusas. Muito pelo contrário: justamente quando “as pessoas” (o próximo cataclismo não deve tardar) acharam bacana compor e gravar. E, não duvide, você nem suportaria imaginar o quanto aquela gente compôs e gravou!

Naqueles dias, Elias fora ao deserto apenas para evitar a detestável música que nos impunham. Eu tentaria acompanhá-lo, não fosse Elias, homem de maus bofes, um arredio até não mais poder, esquisitão do bairro e adjacências, e que, tão certo quanto uma agulha é menor do que um camelo, recusaria a minha companhia sem qualquer hesitação ou polidez. Tanto melhor, pois os dias no deserto me privariam – para muito além de toda a resistência que dispunha – de raros e esparsos prazeres, únicos que trazem o ânimo propício à resistência, exceto se fêmeas de camelos pudessem ser receptivas, e (tome nota!) que soubessem ser:

Alegres, azevieiras, bandalhas, bargantes, bragantes, brejeiras, cínicas, corrompidas, corruptas, cúpidas, degeneradas, depravadas, desairosas, desavergonhadas, descaradas, desenvoltas, desenvoltosas, desgarradas, despudoradas, desregradas, dissipadas, dissolutas, eróticas, fesceninas, frascárias, frias, hediondas, imorais, impudentes, impudicas, incastas, inconvenientes, indecentes, indecorosas, intemperantes, lascivas, libertinas, libidinosas, licenciosas, lúbricas, maganas, mecas, molitas, obscenas, páticas, perdidas, pervertidas, pornográficas, rigolboches, sacanas, safadas, salazes, sem-vergonhas, sensuais, sórdidas, velhacas, voluptuosas.

Ah, e seria lindo vê-las agachar com leveza e graça. Bem, já que estamos assim inspirados por improváveis sensualidades, não sei se elas, fêmeas dos camelos, são vocacionadas às melhores práticas do sexo oral, mas creio que desprezem o dilema cretino do “engole ou cospe”, dado que metódicas ruminantes.

Consta que Elias retornou de sua temporada no deserto, mas visivelmente transtornado pelo efeito do “sol escaldante” (o que apenas agravou seqüelas de outros lugares-comuns, tão prazenteiros na boca da gente bíblica, que não sabia comprar um reles cântaro sem fazer uso de provérbios), pois bem, todas essas coisas ruins devem ter deixado o pobre homem com os miolos moles, acreditando ter multiplicado, milagrosamente, o azeite e a farinha de incerta viúva, cujo filho teria sido ressuscitado no mesmo episódio de charlatanismo protagonizado pelo esquisitão, mas que teria recusado o pão que a amorosa mãe preparara com o azeite e a farinha milagrosos, pois Elias esquecera de providenciar o sal. E, convenhamos, mesmo o intragável pão ázimo leva, além da farinha e do azeite, água fria e sal a gosto. Isso mesmo: sal. E a gosto, ou qb (quanto baste), e não apenas uma mísera pitada de sal. Muito menos nenhum sal!

Deixemos Elias de lado, que nem deveria ser mencionado. Ademais, ele já teve os seus 15 milênios de fama. Eu queria falar mesmo era da Jackie Sperandio, uma das minhas melhores memórias dos anos 80.

Estranhos

Olá, magro
Dê-me um abraço

Quebra-lhe ossos
Minha ternura

Amigo agudo
Fere-me tanta doçura
Pontiaguda e sua

Nós
Afetos

Estranhos
Ambos
Bem mal nos vimos
Irmãos já somos

Não tenho nada com isso

Não custa lembrar:

Eu sou apenas o entregador de pizza. Preciso voltar. Estou de passagem. Acabo de sair – entendeu? Você já pode me ver à distância (acabo de vencer 3 quarteirões, ou 4, sei lá, mas já estou distante). Moro longe, muito longe (você não gostaria de me acompanhar até lá, ao lugar onde costumo dormir, quando posso – sei do que falo).  E, creia, não foi boa escolha contar com o meu testemunho.

Nada tenho a dizer que possa tornar a sua dor suportável. Se mal posso cuidar da minha própria…

Eu sou apenas o entregador de pizza. Não há mistério algum em nosso encontro (concedo, mas deixo claro que não há na palavra “encontro” nenhuma dessas bobagens nas quais muitos se apegam, pois do contrário enlouqueceriam) , pois bem, em nosso encontro meramente acidental.

Acredite: você só me viu porque eu tinha uma bosta de pizza fria e gordurosa para entregar no seu endereço. Poderia ser outro o endereço, apenas calhou de ser o seu.

Eu sou apenas o entregador de pizza e todos os endereços me são desagradáveis. A começar pelos nomes que dão aos logradouros fétidos da cidade.

Caralho, já disse: sou apenas o entregador de pizza. Get a life!

E nem gosto de entregar pizzas, se você quer saber…

Guerra

Agora
Esta província
– Desde já proclamo –
Tem o teu nome

Saibam:
O vasto império
– Meu triunfo desumano –
Assim também se chame

Além
Do que o sonho invente
– Por mais insano –
Lá estarei: teu emissário insone

Claro:
À tua passagem
Tempestade
Seja murmúrio, aragem.

O Dom

O presente à mulher amada, qualquer que seja ele, nunca é banal. Nada há de frívolo, acidental, descuidado no gesto do enamorado. O que não significa afirmar que resulte de frio cálculo.

Frio? Cálculo? Pouco provável, se vindo de febris errantes.

Há, sim, desmedido investimento erótico.

Em “Fragmentos de um discurso amorosoRoland Barthes, em outras palavras (já não tenho o livro e posso estar sendo traído pela memória), diz:

1) Procura-se, elege-se o presente amoroso tomado por enorme excitação, de modo tal que o enamorado experimenta estado orgástico.

Se outro, muito semelhante àquela condição experimentada durante o orgasmo – De fato, pouco diferem entre si quando em êxtase, pois a delícia e o desgoverno são comparáveis.

Barthes também diz que:

2) o presente amoroso é solene. Tragado pela metonímia voraz que prevalece nos domínios da imaginação, nele pretende-se ser transportado em direção à amada. Por meio do objeto espera-se ser recebido inteiro; tocar a amada com o próprio falo. Não sem motivo, louco de excitação, o enamorado sai em busca do presente; obstinado, persegue o bom fetiche, o fetiche magnífico, pleno, que bem sirva ao desejo da amada.

A paixão não se contenta em ser enunciada. Ela exige, de quem a experimenta, a liturgia (grave ou extravagante) de uma verdadeira anunciação. Por isso o enamorado em vigília permanente, à maneira de sacerdote devotado; por isso ocasionais sensações de epifania; por isso os presentes amorosos dotados de “mana“.

Som & Fúria

I need the sound of the keys, the keys of a manual typewriter. The hammers striking the page. I like to see the words, the sentences, as they take shape. It’s an aesthetic issue: when I work I have a sculptor’s sense of the shape of the words I’m making.

Foi com desdém que li as justificativas do Don DeLillo (via Todoprosa) à opção por não abandonar a máquina de escrever. Afinal, pensei, o teclado de um computador também pode ser sonoro. De fato, alguns teclados conseguem ser especialmente irritantes, por tão ruidosos – prefiro os dóceis ao toque e que respondem ao estímulo com sussurros.

Prosseguindo com fácil ânimo, diria eu sem hesitar que, tanto com um quanto com outro teclado, nossos braços (quando menos, os meus) seguem aptos a “martelar”:  palavras no papel ou na tela do monitor, e que o uso da segunda ferramenta não resulta em martelagem menos veraz que o uso da primeira.

Afinal, que importa o resto quando o ímpeto de invenção, de maneira ou outra, prossegue, palavra após palavra, enquanto você consegue?

Só quando vi a palavra “escultor” pude aceitar o motivo do autor. Não que eu esteja convencido de que, por tal modo, em vez de outro, o texto deixe de ser tipo legítimo de escultura (começa-se a esculpir muito antes), mas porque, suponho, estamos a falar de afinidade personalíssima em relação aos objetos (lato sensu, notadamente quando referindo alvo de pulsão) que elegemos, afinidade esta que diz muito pouco acerca de funcionalidade, escolhas meramente utilitárias, ou o modo como podemos percebê-los.

Assim, nada me autoriza afirmar que o conceito de escultura em DeLillo seja frívolo demais, porque, digamos, ele gosta de pensar que a haste, em cuja extremidade há caractere em alto relevo, seja cinzel ou coisa comparável.

Eu próprio estaria obrigado a admitir que as minhas objeções não são menos frívolas, pois surgem de uma crença segundo a qual o ímpeto de invenção existe de maneira ou outra, a despeito de condições objetivas ou nem tanto, em vez de, muito mais crível, existência nunca possível exceto aquela à medida de cada um de nós.

They shot the playwright

O dramaturgo Mário Bortolotto, dono do blog de nome “Atirem no Dramaturgo“, foi baleado no Espaço Parlapatões (São Paulo-SP).

Que sinistra ironia do destino…

Ou este teria sido mais um episódio de violento exercício da crítica teatral?

Bortolotto foi alvejado quatro vezes. O seu estado é grave. Queiram os deuses saia vivo e bem o quanto antes.

A Trajetória das Fezes

Nascimento de Reinaldo Pústula Azevedo

Imagem originária da iconografia do mito genésico de Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, a pústula moral, justifica, em um dos posts de seu inacreditável blog, as breves reminiscências de seus primeiros anos em Dois Córregos,  sua cidade natal no interiorrrr de São Paulo, cometidas em um outro post do mesmo blog. A pústula afirma que não pretendia “estimular uma futura hagiografia“.

No caso da pústula, tenho dúvidas quanto ao gênero (ou técnica) mais apropriado para narrar a sua trajetória*, já que ele próprio descarta o hagiográfico. Algumas possibilidades:

  • Nosografia = Descrição de doenças
  • Necrografia – Descrição de cadáveres
  • Enterografia – Descrição anatômica dos intestinos
  • Pornografia – Grossa bandalheira

* Ora, até merda tem trajetória (“A Trajetória das Fezes” é um título notável, pois não?). Senão vejamos: A pústula nasceu em Dois Córregos, com estadias no intestino delgado (e seus distritos duodeno, jejuno e íleo) e intestino grosso (e seus distritos ceco, cólon e reto), com breve passagem pelo ânus, donde partiu para as mais fétidas redações do país.

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